Violência durante a infância contribui para violência na fase adulta, conclui estudo

Folha Belacruzense Noticias | segunda-feira, junho 13, 2016 |

A constante exposição à violência urbana durante a infância e a adolescência contribui para a reprodução da violência na fase adulta, inclusive doméstica e de gênero. É o que conclui o estudo Masculinidade e Não Violência no Rio de Janeiro, publicado nesta quinta-feira, 19 de maio, pelo Instituto Promundo.
Foram entrevistadas 1.151 pessoas entre 2013 e 2016, de 18 a 59 anos, em duas áreas da cidade do Rio de Janeiro: a sul, onde as taxas de homicídio são mais reduzidas, e a norte, onde essas taxas são mais elevadas. Na etapa qualitativa foram feitas 56 entrevistas com homens e familiares, de 18 a 56 anos, que tomaram trajetórias de não violência, incluindo ex-traficantes, policiais, ativistas e as respectivas parceiras.
A violência dentro de casa aparece no estudo como fator crucial para a perpetração da violência na fase adulta. Mais de 64% dos homens que declararam ter sido expostos à violência doméstica durante a infância tinham praticado violência nas relações íntimas, 70% tinham praticado violência física na rua e quase 30% haviam feito uso de violência sexual. As entrevistadas expostas à violência doméstica eram significativamente mais propensas a usar a violência urbana física e verbal em alguma ocasião, aponta a pesquisa.
Violência na infância
Mais de 80% dos homens haviam sofrido pelo menos duas situações de violência antes dos 18 anos. Na fase adulta, o uso da violência urbana foi cometido pela maioria: cerca de 65% dos homens da região sul e 57,3% da norte. A violência contra parceiras íntimas, violência sexual e pública foram mais praticadas nos bairros com maiores índices de homicídio. Mais de 46% dos homens que moravam na região norte e 38,7% dos que moravam na região sul relataram ter usado violência contra pessoas íntimas. Na zona norte, 17% dos homens relataram ter praticado violência sexual contra uma mulher que não a sua parceira. Na zona sul esse percentual foi 9,2%.

A paternidade surgiu como fator central de mudança dos entrevistados que declararam ter seguido trajetória de não violência. Outros fatores para a mudança citados foram: conexão a círculos de convivência ou apoio social, níveis de escolaridade dos homens foram alguns fatores citados para a mudança, entre outros. Os policiais entrevistados disseram que procuraram ajuda psicológica nos serviços de apoio da Polícia Militar.  Ex-traficantes entrevistados disseram que o movimento de mudança para atitudes não violentas foi influenciado pela ajuda de organizações não governamentais na assistência na saída do tráfico de drogas, por pressão ou apoio familiar para o abandono do tráfico ou por eventos e riscos traumáticos, como morte de amigos.
Prevenção
Uma das coordenadoras da pesquisa, Alice Taylor, disse que uma das novidades do estudo é apontar casos de sucesso na prevenção, que combinam atividades socioeducativas e apoios psicológicos a homens jovens nos territórios marcados pela violência. “Muito se gasta com policiamento e políticas repressivas, mas são muito poucos os recursos para incentivar e apoiar as mediações de conflito entre jovens, ajudá-los a sair do tráfico, por exemplo. Há projetos no Brasil que oferecem a oportunidade de homens de falar sobre a violência sofrida na infância e na adolescência e muitos desses homens têm conseguido traçar uma trajetória de não violência ou de menos violência”, disse.

Alice também destacou a importância de se trabalhar nas escolas o questionamento das normas de gênero que legitimam posturas violentas associadas à masculinidade. “Programas nesse sentido tem tido resultados positivos na diminuição de atitudes favoráveis a violências. Nossas experiências e diversas pesquisas mostram que é possível”, disse. “Políticas sobre violência urbana e segurança pública geralmente têm relação com intervenções policiais e mais policiamento, que são importantes, mas precisamos olhar para além da polícia e promover estratégias mais eficazes”.


Fonte: Agência CNM, com informações da Agência Brasil


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